O Brasil inicia o ciclo da safra de trigo 2026 em um momento de redefinição estratégica para os produtores da cultura. Após o desempenho robusto de 2025, quando o país colheu 7,9 milhões de toneladas com produtividade média recorde de aproximadamente 3.068 kg/ha, a safra de 2026 projeta um recuo significativo: a Conab estima uma produção de 6,9 milhões de toneladas, queda de 12,3% em relação a 2025. Esse resultado combina menor área cultivada e produtividade abaixo do patamar excepcionalmente alto da safra anterior. 

O primeiro levantamento da Conab para a safra 2026, divulgado em fevereiro de 2026, aponta redução de 5,2% na área cultivada, estimada em 2,3 milhões de hectares, e queda de 7,5% na produtividade média, projetada em 2.978 kg/ha. Os fatores que explicam essa retração são uma combinação de preços menos atrativos na safra 2025/26, aumento dos custos de produção e a preferência dos produtores por commodities com maior retorno, especialmente soja e milho. 

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Comparativo de indicadores: safra de trigo 2025 versus projeções 2026 (Conab, fevereiro/2026) 

Indicador Safra 2025 (resultado final) Safra 2026 (projeção Conab fev/2026) Variação 
Área cultivada 2,433 milhões de ha 2,318 milhões de ha -5,2% 
Produção total 7,9 milhões de toneladas 6,9 milhões de toneladas -12,3% 
Produtividade média 3.068 kg/ha (recorde histórico) 2.978 kg/ha -7,5% 
Consumo doméstico ~11,8 milhões de toneladas ~11,8 milhões de toneladas Estável 
Importações projetadas ~6,2 milhões de toneladas ~8 milhões de toneladas (proj.) Crescimento estimado 

Redução de área: por que os produtores estão migrando para outras culturas 

A redução da área plantada de trigo em 2026 é mais modesta do que a registrada entre 2024 e 2025 (quando houve queda de 16,7%), mas representa uma tendência que já vinha se consolidando. O Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral) aponta que a área paranaense de trigo pode atingir o menor nível em mais de 25 anos nesta safra, reflexo da baixa remuneração do ciclo anterior. 

Os fatores que explicam a saída de área do trigo são estruturais e conjunturais: 

  • Preços abaixo do custo de produção em 2025: o preço médio do trigo no Rio Grande do Sul chegou a R$ 1.000 por tonelada na safra passada, nível insuficiente para cobrir os custos, segundo analistas do setor 
  • Alta dos insumos: fertilizantes e custos logísticos permanecem elevados em 2026, especialmente em função das tensões geopolíticas que afetam os preços do petróleo e da cadeia de suprimentos 
  • Atratividade de culturas concorrentes: soja e milho continuam com rentabilidade relativa superior em várias regiões produtoras, especialmente no Paraná, onde o milho de inverno compete pela mesma janela de plantio 
  • Menor remuneração pela qualidade: a safra 2025 gerou proporção maior de trigo com qualidade industrial inferior no Rio Grande do Sul, o que reduziu o preço efetivo para muitos produtores e desestimulou novos investimentos 

Em Santa Catarina, produtores avaliam migrar para o milho diante das cotações atuais. No Rio Grande do Sul, há relatos de produtores que plantam trigo apenas por necessidade de rotação, sem perspectiva de rentabilidade positiva nos preços do início de 2026. 

O cenário de preços para a safra 2026 é mais otimista: especialistas estimam cotações entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada no momento da colheita, justamente porque a menor área semeada tende a restringir a oferta interna. 

Veja também: Manejo sustentável da soja: práticas para alta eficiência 

Produtividade em 2026: ajuste após o recorde histórico de 2025 

A produtividade média projetada pela Conab para 2026 é de 2.978 kg/ha, representando recuo de 7,5% em relação ao recorde histórico de 3.068 kg/ha alcançado em 2025. Esse ajuste era esperado: a safra 2025 beneficiou-se de um alinhamento excepcional de clima favorável, ausência de doenças graves e investimento intenso em tecnologia de produção, condições que raramente se repetem de forma idêntica. 

Para 2026, os principais fatores que podem influenciar a produtividade incluem: 

  • Decisões de investimento: produtores que antecipam rentabilidade marginal menor tendem a reduzir o uso de insumos como fungicidas e fertilizantes de cobertura, o que impacta diretamente o rendimento por hectare 
  • Condições climáticas do inverno: o Sul do Brasil enfrenta previsão de chuvas abaixo da média em algumas áreas, o que pode afetar o estabelecimento inicial das lavouras; geadas moderadas no momento certo são benéficas para o trigo, mas eventos extremos em fase reprodutiva são o maior risco 
  • Qualidade industrial: o mercado de 2026 está muito atento ao teor proteico dos grãos; a produção de trigo para blends e ração tem menor valor comercial, e produtores que investirem em manejo adequado podem obter prêmio de preço por qualidade superior 

Regiões específicas como Goiás e Distrito Federal devem manter excelente produtividade nas lavouras irrigadas, com expectativas de 5 a 6 mil kg/ha em áreas sob pivô central bem manejadas. 

Contexto de mercado: preço, importação e oportunidades 

Preços internos: pressão de baixo e perspectivas de recuperação 

O mercado de trigo iniciou 2026 com preços pressionados pela herança da safra global abundante de 2025 e pelos estoques confortáveis nos moinhos. No fechamento de janeiro de 2026: 

  • Paraná: preço médio de R$ 1.172,98 por tonelada (queda de 0,78% no mês) 
  • Rio Grande do Sul: R$ 1.058,60 por tonelada (alta de 1,20% em janeiro) 
  • Santa Catarina: R$ 1.158,92 por tonelada, queda de 18,3% na comparação anual, o menor valor real desde março de 2018 

Com o avanço para o plantio em abril, analistas e o Sinditrigo-PR projetam recuperação das cotações ao longo do ano. A estimativa central é de preços entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada para a safra 2026, sustentados pela menor oferta interna e pelos prêmios de qualidade para o trigo paranaense, cujo diferencial sobre o trigo gaúcho e argentino deve superar R$ 200 por tonelada. 

No cenário internacional, o trigo enfrenta oferta global elevada, com ampla produção no hemisfério norte e forte competitividade do trigo russo e argentino. Projeções de menor produção nos EUA em 2026 e tensões na região do Mar Negro trazem alguma volatilidade, mas não foram suficientes para reverter a tendência de preços baixos no curto prazo. 

Importações: dependência estrutural que pode crescer em 2026 

Com produção interna projetada em 6,9 milhões de toneladas e consumo doméstico estável em torno de 11,8 milhões de toneladas, o déficit a ser suprido por importações em 2026 é de aproximadamente 8 milhões de toneladas, volume que poderia colocar o Brasil como o maior importador mundial de trigo, ultrapassando o Egito, segundo estimativa do Sinditrigo-PR. 

A Argentina continua sendo a principal origem das importações brasileiras, com participação de 59,7% nos desembarques recentes. Porém, a safra argentina de 2025 trouxe um desafio adicional: excesso de chuvas durante a formação dos grãos reduziu o teor de proteína para 8% a 9% em várias regiões, abaixo do mínimo exigido para panificação. Isso obrigou os moinhos brasileiros a buscar trigos melhoradores em outras origens, abrindo oportunidade de prêmio adicional para o trigo brasileiro de alta qualidade proteica. 

Exportações: mercado externo valoriza a qualidade do trigo nacional 

As exportações brasileiras de trigo consolidaram o país como fornecedor de nicho para mercados que valorizam qualidade e competitividade. O trigo paranaense tem mantido posição diferenciada por qualidade industrial superior, permitindo acesso a prêmios que o trigo de outras origens não alcança. A expectativa para 2026 depende do volume produzido e das condições do mercado externo, com o Paraná sendo o principal ponto de exportação via cabotagem para o Nordeste. 

Cenário do mercado de trigo brasileiro em 2026: resumo 

Aspecto Situação em 2026 Tendência 
Produção interna (Conab, fev./26) 6,9 milhões de toneladas (-12,3% vs. 2025) Queda por menor área e produtividade 
Área plantada 2,318 milhões de ha (-5,2%) Menor nível no Paraná em mais de 25 anos 
Preço no Paraná (jan./26) R$ 1.172,98/t (-0,78% no mês) Recuperação esperada: R$ 1.350-1.500/t na colheita 
Preço no RS (jan/26) R$ 1.058,60/t (+1,20% em jan.) Desequilíbrio vs. PR; mercado dependente de qualidade 
Importações Até 8 milhões de toneladas (projeção) Possível maior importador mundial em 2026 
Principal origem das importações Argentina (59,7% dos desembarques) Problema de qualidade proteica exige blend 
Diferencial do trigo paranaense Prêmio de mais de R$ 200/t sobre trigo gaúcho Oportunidade para produtores com trigo de qualidade 

O plantio da safra 2026: calendário e regiões produtoras 

O plantio da safra de trigo 2026 já se inicia em abril no Paraná, maior estado produtor, ganhando ritmo ao longo de maio. No Rio Grande do Sul, segundo maior polo produtor, a semeadura se concentra entre maio e julho. A região Sul concentra mais de 85% da produção brasileira, e as decisões de plantio dessas duas UFs definem em grande medida o resultado nacional. 

Sul: menor área, mas oportunidade de qualidade 

No Paraná, a semeadura começa em meados de abril e se estende por maio e junho, com a colheita prevista entre setembro e novembro. O Estado enfrenta perspectiva de área historicamente baixa, mas produtores que decidirem plantar têm oportunidade de se posicionar bem, dado o preço esperado na colheita e o diferencial do trigo paranaense no mercado interno. 

No Rio Grande do Sul, a safra de 2025 apresentou desafios: preços abaixo do custo de produção em boa parte do ciclo e proporção elevada de trigo destinado a ração e biscoitos, com qualidade industrial aquém do ideal. Para 2026, a estratégia de muitos produtores gaúchos é priorizar cultivares com maior potencial de qualidade proteica e ajustar a adubação para garantir teores adequados, especialmente diante da maior concorrência com o trigo argentino de menor proteína. 

Em Santa Catarina, o mercado de sementes registrava sinais de redução de área desde o início do ano, com produtores avaliando o milho como alternativa. O clima nas altitudes elevadas do planalto catarinense continua sendo um diferencial positivo para a qualidade do trigo produzido na região. 

Centro-Oeste e Sudeste: irrigado como alternativa de alta produtividade 

Em Goiás, o trigo irrigado sob pivô central mantém sua posição como uma das modalidades de maior produtividade do Brasil, com área estimada em torno de 25 mil hectares irrigados e produtividade média esperada entre 5.000 e 5.400 kg/ha, muito acima da média nacional. 

Em Minas Gerais e no Distrito Federal, as lavouras irrigadas também devem manter bom desempenho, com o clima mais fresco do inverno do Cerrado favorecendo o desenvolvimento vegetativo e a formação dos grãos. Para produtores dessas regiões, o trigo irrigado é uma opção estratégica de rotação com soja e milho, diversificando a receita no período seco. 

Perspectivas para o triticultor em 2026: riscos e oportunidades 

A safra de trigo 2026 apresenta um cenário mais desafiador do que o excepcionalmente positivo 2025, mas não deve ser lida apenas como perda. Para o produtor bem posicionado, há oportunidades relevantes. 

Os principais riscos da safra 2026 são: 

  • Clima do inverno sul-brasileiro: geadas severas em fase reprodutiva, excesso de chuva durante a colheita e variações bruscas de temperatura são os maiores riscos para produtividade e qualidade dos grãos 
  • Custos de produção elevados: fertilizantes, defensivos e logística continuam pressionados, reduzindo a margem disponível e obrigando decisões cuidadosas sobre nível de investimento por hectare 
  • Volatilidade dos preços internacionais: a ampla oferta global e a competitividade do trigo russo e argentino limitam a formação de preços no mercado interno; tensões geopolíticas podem gerar volatilidade no curto prazo 

As principais oportunidades são: 

  • Preço esperado na colheita: a redução de área nacional deve sustentar cotações entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada para a safra 2026, nível que pode remunerar bem o produtor eficiente 
  • Prêmio por qualidade: o mercado de 2026 está escasso de trigo com qualidade proteica adequada para panificação, especialmente após o problema de proteína da safra argentina; produtores que investirem em manejo para garantir teor proteico elevado podem obter prêmios adicionais significativos 
  • Menor concorrência interna: com menos produtores plantando trigo, quem entrar na safra com boa estrutura de produção e capacidade de armazenamento estará em posição vantajosa para comercializar em janelas favoráveis 
  • Rotação e saúde do solo: o trigo continua sendo fundamental na rotação de culturas do SPD, especialmente no controle de nematoides e na produção de palhada; produtores que eliminam o trigo da rotação podem enfrentar custos crescentes de manejo fitossanitário nas culturas de verão 

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